quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sorteio: A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe



Em parceria com a Biblioteca Azul, em setembro teremos um sorteio mais que especial: um exemplar da nova edição de A Máquina de Fazer Espanhóis autografada pelo Valter Hugo Mãe =]

Para participar do sorteio é só preencher o formulário (clique aqui) com seu nome e email e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 04/09/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 05/09/2016, às 10h. 

Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será informado aqui no blog. Boa sorte! :)


sábado, 13 de agosto de 2016

Sobre livros perdidos e achados



Ontem passei pela biblioteca central da universidade. Precisava de um livro para um texto que estou escrevendo, mas como às vezes demoro muito para localizar as coisas que eu preciso na biblioteca (aquele sistema de organização é algo que ainda me engana muitas vezes), acabo sempre passeando por outras estantes, olhando os livros com calma, vez ou outra algum me chama a atenção e ontem não foi diferente. Peguei alguns da estante, sentei em uma das mesas de estudo e fiquei por lá esperando o horário em que iria buscar minha irmã. 

Adoro bibliotecas. Sempre gostei de ficar passeando pelos corredores, olhando as lombadas dos livros, encontrando títulos interessantes; é um lugar cheio de possibilidades. Já pararam para pensar que há livros ali que talvez não tenham sido lidos por ninguém há anos? Acho triste como ocorre nas universidades estadunidenses, que descartam alguns livros depois de muito tempo sem que tenham sido emprestados. Por conta disso, já consegui comprar livros descartados por universidades, em ótimo estado, verdadeiras preciosidades, em sebos. Mesmo achando triste que eles deixassem de ter um lugarzinho para eles, fico sempre feliz quando esses livros me encontram, ainda mais vindo de tão longe.

Depois de mais de uma hora por lá, fui para o balcão de empréstimos. Qual não foi minha surpresa quando a bibliotecária me olha e diz:
- O livro desaparecido!

Sem entender o que era, apenas disse que o livro estava na prateleira, oras. Como assim desaparecido? E então ela me mostra que no sistema da biblioteca aquele livro constava, desde 2011, como desaparecido. Acho que alguém, por descuido, acabou colocando o livro em uma prateleira diferente, e com isso ele não era mais encontrado. Vejam só como é importante respeitarmos essas regras e deixar os livros consultados naquelas mesas específicas, para que os bibliotecários possam colocá-los nos lugares certos. Esse sistema de organização é mesmo algo importante e uma coisa que eu pretendo aprender bem ainda (já tô bem melhor do que nas primeiras vezes na biblioteca central).

Outra bibliotecária foi chamada para orientar a primeira sobre como proceder, pois dada a surpresa da moça, não se encontram livros desaparecidos com muita frequência, ela não sabia o que fazer. Após verificarem que o livro estava em bom estado e em condições de ser emprestado, pude efetuar o empréstimo. Ele voltou comigo para casa, para seu primeiro passeio depois de cinco anos na estante da biblioteca.

Foi uma coisa bonita no meu dia, isso de saber que salvei um livro do esquecimento. São sempre os livros que me salvam, foi bom ter a chance de fazer isso também, ainda mais de um livro feminista, mesmo que tenha sido por acaso. (Mas como acho que são os livros que nos escolhem, talvez nem tenha sido tanto acaso assim).

E vocês, já encontraram algum livro perdido? =]

domingo, 7 de agosto de 2016

Vidas Partidas


Felizinhas

Lembro de minha mãe com algodão nas narinas e 
sete furos abaixo do seio esquerdo. Ornamentais. 
E também lembro da minha avó roxinha, 
roxa que nem repolho, com uns ornamentos no pescoço. 
E me ensinaram que elas eram felizes. 
(Ana Elisa Ribeiro, Beijo, boa sorte, 2015, p. 17)


No dia em que a Lei Maria da Penha* completa 10 anos, decidi escrever sobre o filme Vidas Partidas, do diretor Marcos Schechtman, que estreou essa semana nos cinemas brasileiros. Inspirado nas muitas histórias de violência contra as mulheres que ainda hoje infelizmente são uma realidade, o filme conta a história de Graça, interpretada pela atriz Naura Schneider, uma bióloga de sucesso, casada e mãe de duas filhas. Graça é apaixonada pelo marido, Raul, interpretado pelo ator Domingos Montagner, e os dois vivem um relacionamento passional e abusivo. 

Ambientado no nordeste do Brasil nos anos 1980, o filme coloca em pauta uma questão essencial nos nossos dias: a violência doméstica que destrói a vida de mulheres no mundo inteiro e os problemas que as mulheres ainda enfrentam ao buscar ajuda em situações de violência, uma vez que a burocracia e a falta de preparo dos profissionais que prestam atendimento às vítimas, e também por parte da polícia, dificulta bastante as denúncias. 

A relação entre o casal é intensa e desde o início já percebemos os sinais de que é uma relação abusiva. Autoritário, ciumento, Raul age de forma a controlar tudo na rotina familiar, monitorando todo e qualquer contato que a esposa tenha, mesmo que seja com colegas de trabalho ou outros membros da família. Apresenta reações exageradas com as filhas e com a esposa e depois se arrepende, pedindo desculpas e trazendo presentes, algo comum nesses casos de violência e comportamento que ajuda a manter as mulheres presas aos ciclos de violência.

Os problemas vão aumentando quando Raul fica desempregado e Graça avança em sua carreira, recebendo prêmios pelo seu trabalho. No patriarcado, o sucesso e a independência das mulheres não é visto com bons olhos e a violência surge muitas vezes como forma de mantê-las "sob controle", em situação de inferioridade. 

Tentando ajudar Raul, Graça pede um favor a um ex-namorado, que consegue um emprego como professor na universidade para Raul. Quando começa a lecionar, Raul logo se envolve com as alunas e mantém trancadas em um quarto da casa todas as cartas que recebe de suas amantes. Ao mesmo tempo, Raul passa a agir com mais e mais violência, fazendo cenas de ciúmes no ambiente profissional de Graça, o que a prejudica bastante. A violência psicológica que já existia se intensifica e as agressões físicas começam. 

O mais interessante do filme é que ele mostra bem como os ciclos de violência ocorrem e como as mudanças de comportamento do agressor, que logo após ter agredido de forma violenta a esposa pede perdão e dá presentes e flores, ou age de forma amorosa com as filhas, mostrando ser um bom pai, são formas de manter a mulher presa ao ciclo de violência por pensar na manutenção da família. O que eu mais gostei, no entanto, foi o fato de Graça ter ido até o fim no processo judicial contra o agressor. Só lamentei que isso tenha demorado tanto para acontecer, pois cada dia de espera significa mais riscos para a mulher em situação violenta. É importante pensar também o impacto dessa violência para as crianças que vivem presenciando essa violência cometida pelo pai, o que muitas vezes também as transforma em vítimas.

É sem dúvida um filme que vale a pena ser visto pela discussão importante que ele traz nos dias de hoje e que pode ser muito informativo. Acho que é também um alerta para as mulheres que muitas vezes não sabem reconhecer que vivem em uma situação de violência porque somos ensinadas desde criança que o casamento significa posse (para os homens), sacrifício (por parte da mulher) e que é responsabilidade da mulher mantê-lo para preservar a família. Precisamos desconstruir essa ideia hoje e pelo futuro das próximas gerações. E precisamos conversar para reconhecer que violência dói e não é direito e que há formas de resistir e de lutar para que os agressores sejam punidos.

Recomendo a leitura:



Para assistir ao trailer:




*Lei diminuiu em 10% os assassinatos contra mulheres

Segundo dados de 2015 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a lei Maria da Penha contribuiu para uma diminuição de cerca de 10% na taxa de homicídios contra mulheres praticados dentro das residência das vítimas.

* E se vocês conhecerem outros filmes (e também livros, músicas) que falem sobre violência doméstica, compartilhem aqui nos comentários =]

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Butcher's Crossing


"Esses moços", disse McDonald com desdém. 
"Sempre acham que existe alguma coisa mais para descobrir" 


Estados Unidos, 1870. O jovem Will Andrews, estudante de Direito na Universidade de Harvard, decide largar tudo em busca de uma vida mais autêntica. Está em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é e chega a Butcher's Crossing, uma cidadezinha do Kansas, dessas bem típicas dos filmes de faroeste, com um pouco de dinheiro e uma vontade de ver o mundo que até então ele só conheceu nos livros.

Ao chegar em Butcher's Crossing, ele procura um velho conhecido de seu pai, McDonald, dono de uma charquearia e o maior negociante de peles de búfalos da região. Enquanto caminha até lá, Will passa por grupos de caçadores que saem em busca dos búfalos, cujas peles são vendidas para McDonald, um negócio lucrativo na época. Nessa cidadezinha isolada, pacata, onde o tempo parece ter parado, as pessoas vivem na esperança da chegada da ferrovia, que mudaria para melhor as condições de vida e de trabalho de todos. 


No saloon da cidade, Will conhece Miller, um caçador experiente indicado por McDonald, e seu fiel escudeiro, Charley Hoge. Assim, ele fica sabendo dos sonhos de Miller de conseguir ir em busca da maior manada de búfalos que ele já viu, anos antes, em uma região mais afastada e que aparentemente se mantém intocada. Will vê nessa expedição a aventura que busca e decide partir com Miller, Charley e o rabugento Schneider, o esfolador contratado para tirar as peles dos búfalos, nessa jornada que o aproximará da natureza de forma intensa e transformadora.

Segundo romance do escritor estadunidense John Williams que chega ao público brasileiro pela Rádio Londres, Butcher's Crossing é um livro surpreendente, ao estilo de um bom faroeste americano, mas indo muito além disso. Um enredo aparentemente simples, mas que adquire grande profundidade em determinados momentos, como parece ser a marca de John Williams. Somos completamente envolvidos nessa história, cujas descrições tão ricas nos transportam de uma pequena cidadezinha no Kansas até as montanhas do Colorado. Quase dá para sentir a poeira, o vento, os cheiros.

Juntos, os quatro personagens enfrentam a exaustão física, a fome, a sede, o calor e o frio intenso do inverno. A caçada acaba por se tornar uma experiência existencial para eles, mas principalmente para Andrews, que passa por um processo de amadurecimento diante da vida durante essa jornada que acaba por durar muito mais tempo do que eles imaginavam. Nesse sentido, o romance pode ser lido como um romance de formação. Com seu jeito mais quieto e observador, e o contato com homens tão diferentes quanto Miller, Charley e Schneider por tanto tempo possibilitam um grande aprendizado e equilibram as diferentes perspectivas presentes durante a viagem.

Apesar do enredo simples, o que parece conquistar os leitores é a forma como John Williams consegue narrar a história de modo a nos envolver completamente nesse cenário de intenso contato com a natureza, com descrições ricas e sensoriais, tão perfeito que nos imaginamos mesmo dentro de um filme de faroeste (não é a toa que já existe um filme baseado nesse livro). O deslumbramento de Will diante da natureza - ao mesmo tempo tão assustadora - permite refletir sobre o papel da natureza na vida do homem, sua força, sua capacidade de transformação. Nenhum deles permanece o mesmo depois dessa jornada, ainda que o que movia cada um deles fosse algo diferente. Essa transformação é visível nas personagens, nas quais é possível perceber até mesmo certa animalização diante da experiência de isolamento em meio à natureza.
"Não conseguia imaginar sequer imaginar como seria. Com um leve choque, ele se deu conta de que o mundo, além daquela região cercada por encostas de montanhas por todos os lados, havia se apagado em sua memória. Não conseguia sequer se lembrar da montanha que haviam subido, sem mesmo da vasta planície onde haviam suado e sentido sede, tampouco de Butcher's Crossing, aonde chegara e que deixara apenas uma semana antes. Aquele mundo só lhe voltava aos surtos e de forma confusa, como que escondido num sonho. Havia passado naquele vale o período mais importante de sua vida, e quando olhou de cima - plano, verde-amarelado, as altas muralhas da montanha, amadeirada de pinheiros verdes escuros onde flamejava o ouro rubro dos álamos trêmulos, as rochas ressaltadas e as encostas, tudo toldado pelo azul intenso do céu de ar rarefeito -, parecia-lhe que os próprios contornos do lugar eram fluidos sob seus olhos, que seu próprio olhar modalva o que ele via e que, em troca, lhe dava à própria existência forma e lugar. Não conseguia mais pensar em si mesmo fora de onde se encontrava" (p. 194-195).
Butcher's Crossing é um livro sobre a necessidade de dar sentido à vida e à existência, a necessidade intensa de descobrir o mundo e desbravá-lo, procurando por algo que nem sabemos o que seja, sentimento tão comum na juventude (e às vezes também além dela). É um livro sobre as paixões e as ambições idealizadas, muitas das quais nos movem durante boa parte da vida, até percebermos que o tempo passou, que no final não fazia tanto sentido como imaginávamos. Talvez seja esse elemento existencial o que nos aproxima tanto do livro, mesmo que não tenhamos jamais imaginado gostar de uma narrativa que tratasse de caçadas de búfalos e homens em território selvagem. Mas se pensarmos que essa caçada é a vida, e que a busca desenfreada por trabalho, aventuras e descobertas, e também paixões, seja um sentimento tão comum entre nós, a ser trabalhado com o tempo e o amadurecimento (sábias palavras do velho McDonald), tudo faz mais sentido. E nos deixa com um sentimento, misto de melancolia e nostalgia, quando a jornada das personagens (e a leitura do livro) chega ao fim. Uma das melhores leituras do ano.

"Depois de um instante de euforia diante do anúncio de Miller, Andrews se sentiu tomado por uma tristeza estranha, como um pressentimento de nostalgia. Olhou para a pequena fogueira ardendo alegremente contra a escuridão e, mais além, ele viu a escuridão. Lá estava o vale que ele acabara conhecendo tão bem quanto a palma da própria mão. Ele não conseguia enxergá-lo, mas sabia que estava ali; e lá estavam os cadáveres putrefatos dos búfalos por cujas peles eles haviam trocado seu suor, seu tempo e boa parte de suas energias. Os fardos de peles também estavam por ali no escuro. Pela manhã, eles os carregariam na carroça e iriam embora daquele lugar; e ele teve a sensação de que jamais retornaria ali, embora soubesse que precisaria voltar com os outros para buscar as peles que não conseguissem levar. Sentia vagamente que estava deixando alguma coisa para trás, algo que talvez pudesse ser precioso para ele, se soubesse do que se tratava. Naquela noite, depois que a fogueira apagou, ele se deitou no escuro, sozinho, fora do abrigo, e deixou que o frio atravessasse suas roupas e sua carne. Enfim, adormeceu, mas acordou à noite várias vezes, e forçou a vista diante da escuridão da noite sem estrelas" (p. 254).
***

John Edward Williams (1922-1994) nasceu em Clarksville, no Texas, Estados Unidos. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954, recebeu o título de doutor em Literatura Inglesa na Universidade do Missouri. Trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa na Universidade de Denver até sua aposentadoria, em 1985. Em Denver, também foi o editor fundador de uma revista literária,The Denver Quarterly. Publicou quatro livros: 
"Nothing but the Night" (1948), "Butcher's Crossing" (1960),  "Stoner" (1965) e Augustus (1972), que ganhou o National Book Award. Também publicou dois livros de poesia: "The Broken Landscape: Poems" (1949) e "The Necessary Lie" (1965).


*Recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O americano tranquilo



Publicado originalmente em 1955, O americano tranquilo, de Graham Greene, acaba de ganhar uma nova edição pela Biblioteca Azul, com tradução de Cássio de Arantes Leite. O romance, ambientado na Indochina no período de 1946 a 1954, já foi adaptado para o cinema e tem como tema central um triângulo amoroso nesse cenário de conflito.

Dividido em quatro partes, o romance retrata os conflitos morais de Thomas Fowler, um correspondente britânico em Saigon, durante a Guerra da Indochina, e um jovem americano idealista, Alden Pyle, enviado em uma missão secreta para o local. Os dois se conhecem por acaso e desenvolvem uma relação de amizade um tanto desequilibrada e movida em grande parte pela solidão que vivenciam nesse cenário de guerra. O jovem Pyle, idealista e romântico, vê em Thomas um amigo a quem deve lealdade, mas as coisas se complicam quando ele se encanta pela jovem Phuong, a amante vietnamita de Fowler, o que causará uma discórdia velada entre os dois.

O idealismo de Pyle incomoda Thomas, que passa a refletir sobre suas atitudes e posicionamentos a partir da convivência com Pyle, afinal, é através dos outros que passamos a conhecer melhor nós mesmos. 
A disputa entre os dois reverbera a disputa ideológica que passam a ter. Pyle representa um idealismo, por vezes cego, que pode causar destruição, ao passo que Fowler traz um olhar mais cético e crítico à toda violência da guerra. A princípio, ele tenta se isentar de qualquer participação em tudo que vê e deve retratar aos jornais ingleses, até se dar conta de que estar ali já o torna cúmplice de tudo o que vê e critica. Greene de certa forma antecipou nesse romance o papel que os Estados Unidos assumiria na Guerra do Vietnã (1959-1973), após a derrota da França e isso se vê principalmente no papel maior que Pyle começa a desenvolver no local. Os questionamentos morais que Thomas Fowler faz em relação à guerra, retratando como os soldados se sentiam naquele cenário de destruição, proporciona uma reflexão sobre o mal e a forma banal como ele prevalece, e os soldados se questionando sobre as mortes que estão causando e a mando (e em nome) de quem (e de quais ideais) são um contraponto interessante. Essa é sem dúvida a parte mais rica do romance, na crítica que faz ao modo como as ideologias podem corromper as pessoas e destruir as relações que estabelecem. 

Algo que merece ser comentado é a forma objetificada com que a personagem feminina é retratada. A jovem Phuong é um mero objeto de disputa entre os dois homens, destituída de opinião e sentimentos, que não compreende o inglês e fala pouco francês, ou seja, uma personagem que praticamente não tem voz. A preocupação da irmã de Phuong é casá-la com um estrangeiro que tenha dinheiro e que possa lhe dar alguma condição de vida. Thomas Fowler, que trata Phuong como alguém subserviente e sempre disposto a fazer e dizer o que ele quer, de repente se vê amaçado por esse jovem idealista que quer se casar com Phuong, mostrando que tem dinheiro e que pode assegurar o seu futuro. Apesar de demonstrar uma preocupação em relação ao possível destino de Phuong na prostituição se ali permanecer sozinha, a oferta de casamento de Pyle é mais um acordo do que uma relação movida por amor. Em determinado momento Fowler diz a Phuong: "Não tenho dinheiro algum guardado. Não posso cobrir o lance de Pyle". É quase um leilão.

"Beije-me, Phuong." Ela não fazia charme. Fez imediatamente o que pedi e continuou a contar o filme. Do mesmo modo, teria feito amor comigo na mesma hora se eu houvesse lhe pedido, tirando a calça sem perguntar nada, para, depois, retomar o fio da história de madame Bompierre e as desventuras do chefe do correio" (Greene, pág. 141)
"Observei-a atentamente conforme ela perguntava como eu estava e tocava a tala em minha perna, oferecendo o ombro para que me apoiasse, como se alguém pudesse se apoiar com segurança em uma planta tão jovem. Eu disse: "Estou feliz de estar em casa".
Ela disse que sentira minha falta, o que, é claro, era o que eu queria escutar: sempre me dizia o que eu queria escutar, como um cule respondendo perguntas, exceto por acidente. Agora eu esperava o acidente." (Greene, pág. 139-140)


Mesmo movido por um aparente sentimento de nobreza, que o próprio Thomas reconhece como sendo muito maior que ele próprio, Pyle é capaz de organizar um dos ataques ao centro da cidade, causando a morte de diversas mulheres e crianças. Ao mesmo tempo, assim que se encanta por Phuong, busca contar a verdade ao amigo para apaziguar-se de qualquer sentimento de traição. Procura manter-se firme em seus ideais, chegando até mesmo a salvar Thomas da morte durante uma explosão, o que gera em Thomas um conflito moral ainda maior, uma vez que mesmo assim ele não consegue deixar de se irritar com Pyle por querer tirar dele a garantia de não enfrentar uma velhice sozinho que Phuong representa.

É interessante a forma como Graham Greene narra essa história de modo a prender o leitor interessado em descobrir como tudo vai acabar, em um clima de suspense com ares de investigação policial. Mas é importante ter em mente que temos aqui a perspectiva social do homem branco e heterossexual, o que explica em grande parte a superficialidade das personagens femininas e o sexismo que ainda permeia muitas narrativas de guerra.

GREENE, Graham. O americano tranquilo. Trad. Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

***
O inglês Graham Greene teve uma formação ortodoxa em colégios no interior da Inglaterra, sempre se arriscando na vida literária – em poemas, artigos e contos. Como jornalista, viajou para vários lugares distantes de seu país – separados tanto pela geografia quanto pela cultura. Com passagens por países do oriente e da África, entre os anos 1950 e 1960, introduziu em seus romances um forte teor político. Recebeu inúmeros prêmios e hoje é considerado um dos autores mais importantes do romance moderno inglês.

*Recebi este livro como cortesia da editora Globo Livros.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Resultado do sorteio

E quem ganhou o livro A definição do amor foi a Lulu :)
Obrigada a todos que participaram e até o próximo sorteio.



sábado, 25 de junho de 2016

Havia


Havia um livro que merecia encontrar mais leitores, de tão gostoso de ler que é. Havia uma leitora que queria fazer uma resenha, mas desistiu pelo adiantado da hora e pelo muito que ainda há para ler por hoje. Mas em cada um desses contos tão diferentes criados por Joana Bértholo, todos começando com a palavra "Havia" que tá título ao livro, a autora nos mostra as infinitas possibilidades da literatura de uma forma leve e divertida. Recomendo a leitura e deixo aqui o conto que mais gostei no livro, para aguçar o desejo de ler de vocês.

"Havia uma rapariga que todas as manhãs saía para tomar um café com um poema. Tinha-o visto num filme de cinema. Era menina e havia apenas uma sala de cinema na região. Nesse filme, uma mulher lindíssima que acordava perfeitamente penteada e maquilhada sentava-se numa esplanada, numa praça cheia de pombos que não sujavam o chão. Ficava simplesmente ali, lindíssima, a observar as pessoas que passavam e passeavam. Sobre elas escrevia doces e cândidos poemas. Todas as manhãs, justamente ao terminar o seu poema mais inspirado, aparecia um homem alto e bem-parecido. Tinha ar de galã e bebia galão.Foi a partir deste filme que a rapariga ganhou o hábito de ir para a esplanada do fundo da rua, que não tinha arcadas monumentais, mas tinha pombos. Estes, ao contrário dos outros, sujavam tudo e tornavam a rua praticamente intransitável. Pelo que as pessoas evitavam passar por ali. Mesmo assim, a rapariga que todas as manhãs saía para tomar café, e aguardava o seu galã. Para sua enorme estranheza, nunca um galã se sentou à sua mesa para tomar um galão. Ou lhe elogiar a métrica. Muitos anos assim se passaram. Muitos poemas assim se escreveram.Ao contrário do que se possa julgar, nunca desta espera se gerou um espírito desiludido ou amargo. A rapariga que todas as manhãs saía para tomar café com um poema nunca deixou que a escuridão do cinema turvasse a (sua) realidade. Todas as manhãs a rapariga saía para tomar café com um poema, todas as manhãs com a mesma fé e o mesmo ânimo.Para ela, havia suficiente beleza cinematográfica simplesmente naquele ritual, na teimosia dos pombos contra a brancura do mármore, no modo improvável e simpático como a cadeira de ferro se tinha ajustado às suas formas redondas, na atenção turística que os poucos transeuntes – e sempre os mesmos – lhe entregavam num sorriso, ao vê-la sempre ali, estátua e marco daquela rua. Mais embelezadora que qualquer arcada.
Muitos anos assim se passaram. Muitos poemas assim se escreveram.”


Joana Bértholo. Havia. Lisboa: Editorial Caminho, 2012.

Joana Bértholo nasceu em Lisboa em 1982. Frequentou o Curso Geral de Artes na Escola Secundária António Arroio, e depois a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde se licenciou em Design de Comunicação. É doutora em Estudos culturais pela European University Viadrina Frankfurt (Oder), na Alemanha. Publicou os livros Diálogos Para o Fim do Mundo (2009)- Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho (2009); Havia - histórias de coisas que havia e de outras que vai havendo (2012); O Lago Avesso - uma hipótese biográfica (2013); e Inventário do Pó (2015).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Sorteio: A definição do amor

Oi, gente!

A Editora Alaúde disponibilizou um exemplar do romance do escritor português Jorge Reis-Sá, A definição do amor, para eu sortear entre os leitores do blog :)

Para participar do sorteio é fácil: basta preencher o formulário informando seu nome e email e torcer.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30/06/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 01/07/2016 (o resultado será anunciado aqui no blog Pipa não sabe voar). Sorteio válido apenas para residentes no Brasil.

Para acessar o formulário, clique aqui

Boa sorte! E enquanto não sai o resultado do sorteio, que tal conferir a resenha do livro do Jorge Reis-Sá que já comentei por aqui? :) A definição do amor .


quarta-feira, 15 de junho de 2016

A definição do amor



Se o o título do livro pode parecer pretensioso à primeira vista, logo somos levados pela prosa cheia de lirismo de Jorge Reis-Sá a pensar diferente. Não porque o livro nos dê qualquer tipo de resposta, ou tente definir o amor, mas por levantar tantas perguntas e reflexões sobre as muitas ideias de amor apresentadas, tanto na trama central quanto nas histórias que a intercalam e são intituladas de "vésperas" pelo autor.

No centro da trama temos a história de Susana, uma mulher de quarenta e pouco anos que tem um AVC durante um dia de trabalho e é levada para o hospital onde, após o diagnóstico de morte cerebral, também se sabe que ela está grávida de poucos meses. Mantida sob cuidados apenas para que termine de gestar o bebê, é um daqueles casos difíceis da medicina, mas nada impossível: basta vermos a notícia recente de caso semelhante em que uma mulher com morte cerebral consegue concluir a gestação sob cuidados médicos, dando à luz um bebê em Portugal.

Quem narra os acontecimentos é Francisco, marido de Susana, que passa a escrever como forma de sobreviver à espera e ao difícil processo de luto que vivencia, ao mesmo tempo em que tenta aceitar que a nova vida que surge (de sua filha Matilde) levará embora a vida que pouco a pouco se esvai de sua adorada esposa. O texto é uma espécie de diário de luto, no qual sentimos o sofrimento de quem perde alguém que se ama e se vê lutando para continuar vivendo pelos filhos. 

Entre lembranças dos momentos felizes de seu casamento, e relatos do dia a dia no hospital ao lado da esposa ausente, Francisco se vê incapaz de qualquer demonstração de alegria e esperança até mesmo com o filho pequeno. Em silêncio, observa o mundo ao redor, as pessoas da família e os amigos, analisando suas reações diante da morte de Susana. Jorge Reis-Sá constrói um texto sobre a morte para nos fazer pensar no amor. Em um tipo de amor que faz sofrer, quando deixa de existir, mas também no amor que renasce na vida de um filho gerado pela mãe, em seus últimos dias de vida; no amor que renasce entre dois vizinhos já idosos e viúvos que se encontram em sua solidão e voltam a viver com alegria quando ninguém mais espera que o façam.

Apesar do sentimento que perpassa os pequenos fragmentos do diário de Francisco, onde há uma tristeza e um desamparo diante dos quais é difícil permanecer sem se emocionar, o que mais me surpreendeu na narrativa de Reis-Sá foram as "vésperas", os capítulos que intercalam esse diário de luto e que nos contam outras histórias de pessoas da família. Nessas partes onde "o amor" por vezes é maldito, há violência e dor, abusos e violações, entre outros atos destrutivos que muitas vezes são realizados em nome de uma "definição de amor" distorcida. Há também espaço nelas para outras formas de amor, que nossa sociedade homofóbica teima em não aceitar. São essas possibilidades das vésperas que engradecem o texto de Reis-Sá e abrem espaço para reflexões importantes, principalmente nesses tempos em que atitudes de ódio são realizadas em nome de um discurso deturpado de amor. Mais do que o amor de um homem por uma mulher, acredito que o livro extrapola os limites de uma definição simples desse sentimento, fazendo-nos pensar sobre as muitas formas de amor existentes em nossas relações e que, mais do que nunca, talvez estejamos mesmo precisando tentar redefinir.

REIS-SÁ, Jorge. A definição do amor. São Paulo: Tordesilhas, 2016.

***

Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão, uma pequena cidade no norte de Portugal, em 1977. Entre 1999 e 2009, fundou e dirigiu as Quasi Edições e foi diretor editorial da Babel de 2010 a 2013. Sua extensa obra de poesia está reunida no volume "Instituto de Antropologia – Todos os poemas" (Glaciar, 2013). Publicou também os livros de contos "Por ser preciso" (Cosmorama, 2004) e "Terra" (Sextante Editora, 2007), além de volumes de crônicas e dois romances "Todos os dias" (Record, 2007) e "O Dom" (Record, 2009). Este ano lança "A definição do amor" pelo selo Tordesilhas.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Alaúde.

*Se gostou da resenha, você também pode se interessar por Todos os dias, de Jorge Reis-Sá.

sábado, 4 de junho de 2016

As mãos de minha mãe



As mãos de minha mãe são imensas
e seguram seu corpo minúsculo
como as chagas de cristo lhes sustentam
a santidade.

Nos dedos vincados de veias grossas,
na curva que se enruga no mais preto das dobras
as mãos de minha mãe perfazem os caminhos de
seu mundo.

(Se os búzios cantam nas palmas singradas de
rotas negras
é para predizer maresias e ondas dolentes em
meu caminho.)

As mãos de minha mãe, cada vez mais idosas,
guardam, em suas linhas, o segredo de nosso
destino,
elas se cruzam no ventre da espera,
e gestam frutos de um futuro
sempre feliz, sempre feminino.

LÍVIA NATÁLIA. In: Correntezas e outros estudos marinhos. Salvador: Ogum's Toques Negros, 2015.