quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ódio

O ódio                              

(Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)
                                                                                    
Vejam como ainda é eficiente,
como se mantém em forma
o ódio no nosso século.
Com que leveza transpõe altos obstáculos.
Como lhe é fácil – saltar, ultrapassar.

Não é como os outros sentimentos
a um tempo mais velhos e mais novos que ele.
Ele próprio gera as causas
que lhe dão vida.
Se adormece, nunca é um sono eterno.
A insônia não lhe tira as forças; aumenta.

Religião, não religião –
contanto que não se ajoelhe para a largada.
Pátria, não pátria –
contanto que se ponha a correr.
A justiça também não se sai mal no começo.
Depois ele já corre sozinho.
O ódio. O ódio.
Seu rosto num esgar
de êxtase amoroso.

Ah, estes outros sentimentos –
fracotes e molengas.
Desde quando a fraternidade
pode contar com a multidão?

Alguma vez a compaixão
chegou primeiro à meta?
Quantos a dúvida arrasta consigo?
Só ele, que sabe o que faz, arrasta.

Capaz, esperto, muito trabalhador.
Será preciso dizer quantas canções compôs?
Quantas páginas da história numerou?
Quantos tapetes humanos estendeu
Em quantas praças, estádios?

Não nos enganemos:
ele sabe criar a beleza.
São esplêndidos seus clarões na noite escura.
Fantásticos os novelos das explosões na aurora rosada.
Difícil negar o phátos das ruínas
e o humor tosco
da coluna que sobressai vigorosamente sobre elas.

É um mestre do contraste
entre o estrondo e o silêncio,
entre o sangue vermelho e a neve branca.
E acima de tudo nunca o enfada
o tema do torturador impecável
sobre a vítima conspurcada.

Pronto para novas tarefas a cada instante.
Se tem que esperar, espera.
Dizem que é cego. Cego?
Tem a vista aguda de um atirador
e afoito olha o futuro

- só ele.

SZYMBORSKA, Wislawa. Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

Meus segredos com Capitu



Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos, de Ana Elisa Ribeiro, reúne as crônicas escritas por Ana Elisa no Digestivo Cultural e que abordam a temática da leitura e dos livros. É um daqueles livros que tem o que todo bom leitor gosta: a paixão pela leitura e pelos livros em cada página. Ler livros nos quais consigo sentir essa paixão no texto é sempre algo prazeroso e que me anima a convidar mais leitores para, juntos, reafirmar essa paixão que nos move pelas palavras e por sua capacidade de melhorar o mundo. Pois é, acredito que os livros tem esse papel de nos fazer pensar, de nos tornar pessoas melhores, se estivermos dispostos a isso.

Discutindo questões que envolvem o nosso dia a dia, como a nossa relação com as bibliotecas, um simples passeio em uma livraria, aquele primeiro livro comprado com nosso dinheiro, ou um café que sempre nos convida a sentar e aproveitar a leitura de um romance ou um poema, Ana Elisa narra com uma linguagem muito fluida e da fácil acesso questões presentes na vida de qualquer leitor ou leitora. Ela também aborda questões que volta e meia reaparecem nas manchetes, sobre as novas mídias e o formato digital dos livros e como isso afeta nossa relação com os livros impressos – além de falar um pouco sobre seu primeiro contato com grandes nomes da literatura e como surgiu seu encanto por eles, e também sobre a sua relação com a escrita e a publicação de seus textos, entre outras coisas.


São crônicas ótimas para  novos e antigos leitores, podendo ser trabalhadas na escola, ainda que a autora chame a nossa atenção para o fato de que muitas vezes as leituras obrigatórias da escola acabam por tirar toda a nossa vontade de ler – mas, por ser um livro que deixa transparecer esse amor pelos livros, acho difícil não conseguir com ele chamar a atenção dos alunos para o encanto dos livros e as infinitas possibilidades que a leitura pode representar. No entanto, concordo com Ana Elisa e lembro-me do escritor francês Daniel Pennac que lança o desafio: “E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?” (Daniel Pennac, 2008, p. 73). Durante a leitura, foi impossível não resgatar da memória o texto apaixonado de Como um romance”, no qual DanielPennac nos contagia com seu amor pelos livros e argumenta que esse é o caminho para se ensinar literatura, compartilhando nossa paixão pelos livros e deixando que a curiosidade desperte o desejo de ler de novos leitores, afinal “Não se força uma curiosidade, desperta-se”. E acho que Ana Elisa Ribeiro faz isso muito bem. Terminamos a leitura com aquela vontade gostosa de ir até ali na estante buscar um livro favorito para reler um trecho e sentir novamente aquele afago no coração, ou então nos aventurarmos permitindo que uma nova história nos escolha.

(Em tempos tão sombrios, quando golpistas querem destruir nosso sistema educacional e retirar do currículo das escolas disciplinas tão fundamentais para a formação de nossos jovens, além de acabar com os cursos de licenciatura, uma vez que, de acordo com a medida provisória decretada essa semana não é mais necessário ter diploma para ensinar no Brasil (atentem para o fato de que essa decisão foi tomada por medida provisória, sem nenhuma consulta a especialistas no assunto ou à população), quis compartilhar esse livro que fala sobre o poder da leitura - a paixão pelos livros, que nos ensinam a ter empatia pelos outros, que nos sensibilizam para questões importantes dos seres humanos. Não se esqueçam da importância dessa liberdade de pensar criticamente sobre o mundo, que está sendo destruída diante de nossos olhos nos últimos meses. Por favor, lutem para defendê-la, por nós e pelas próximas gerações.)

RIBEIRO, Ana Elisa. Meus segredos com Capitu: livros, leituras e outros paraísos. 2ª ed. Natal: Jovens Escribas, 2015.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tempo - Orides Fontela



TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

- Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo

cavalga o fluxo num milagre
de vida.


FONTELA, Orides. Poesia Completa. São Paulo: Hedra, 2015.

Orides Fontela (1940-1998) é uma das mais importantes poetas brasileiras da segunda metade do século XX. Da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst, Roberto Piva e Adélia Prado, sua pequena e densa obra se sobressai pela radical modernidade e pela cortante lucidez de sua linguagem. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sorteio 2 - A máquina de fazer espanhóis



Quem ganhou o sorteio foi Marina Vitale. Entrarei em contato por email com a vencedora, que tem o prazo de 7 dias para me passar o endereço para envio do livro. Caso não responda aos emails, farei novo sorteio.
Obrigada a todos que participaram.




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Resultado do sorteio - A máquina de fazer espanhóis

Oi, gente!

Quem ganhou o sorteio foi:



Parabéns, Cleiry! Hoje à noite o Valter Hugo Mãe autografará seu livro no evento que acontece hoje em Salvador, Fronteiras do Pensamento. Entrarei em contato com você por email para pegar o endereço, logo logo seu livro autografado chega por aí :)
E obrigada aos 513 inscritos que participaram do sorteio. Até o próximo! ;)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Liturgia do fim



Em tempos em que buscamos dar mais visibilidade ao trabalho de escritoras, é sempre uma alegria quando encontro um romance de uma escritora brasileira que me encanta tanto pelo trabalho com a linguagem, quanto pelo conteúdo que apresenta. Foi assim com Liturgia do fim, segundo romance da paraibana Marília Arnaud, que acaba de ser publicado pela editora Tordesilhas.

Narrado por Inácio, um homem de cerca de trinta anos, o romance discute as raízes e as consequências de um sistema sexista e patriarcal ao retratar o retorno de Inácio a sua cidade natal, chamada Perdição, muitos anos depois do dia em que foi obrigado a deixar a cidade e sua família para trás. Esse dia é o ponto de partida do romance, e seguimos acompanhando as lembranças de Inácio de como foi sua vida depois de ter deixado a cidade, seu casamento, o trabalho como professor e escritor, sua paixão pelos livros. Mas as lembranças de infância continuam a assombrar Inácio que, assim como os demais membros da família, foi marcado pela convivência com um pai autoritário e opressor em um ambiente austero e violento. Mesmo tentando lutar contra essas lembranças, as consequências dessas vivências deixam marcas profundas em Inácio, que tem dificuldades em se relacionar com os outros e se torna um pai e marido ausentes. Essa viagem de retorno à cidade de Perdição é uma viagem de busca por redenção, uma tentativa de se apaziguar com as lembranças do passado e com o pai, que já está bem velho quando Inácio o reencontra.

Nesse sentido, o romance possibilita refletir sobre a construção dos papéis de gênero no ambiente familiar, uma vez que temos uma figura paterna autoritária, que pune frequentemente Inácio por sua personalidade mais sensível e interessada nos livros, o que nos faz refletir sobre como também é violenta a construção da masculinidade nas sociedades patriarcais. As personagens femininas são muito interessantes no romance, apesar de termos um narrador protagonista masculino, pois podemos ver como as mulheres são as maiores vítimas de um sistema patriarcal: ou são totalmente submissas e silenciadas como a mãe de Inácio, ou contestam e se rebelam contra o autoritarismo do pai, como é o caso da irmã de Inácio, ou enlouquecem como a tia louca de Inácio, que habita o sótão da casa - uma imagem também de resistência por não aceitar o sistema vigente e se recusar a fazer parte dele (e também uma referência a um importante texto feminista).

Em Liturgia do fim encontramos um texto trabalhado com grande cuidado, o que torna a leitura muito prazerosa. E as reflexões que ele incita ao retratar uma realidade ainda muito comum é o que torna a leitura desse texto ainda mais interessante.

***

"O que farei ao final deste relato? Subirei ao topo de Perdição, um mundo velado pelos guizos frios do vento, onde se ergue e se espraia um cenário de alturas, larguezas e ondulações, paisagem de uma quietude espessa, onírica, de uma imponência que meus olhos mal conseguem sustentar, e que contrasta com o espaço estiado e sem saída, com a terra de cercas e desalento que me habita, e do seu parapeito secreto jogarei para o alto o manuscrito que tenho aqui em minhas mãos, folha por folha, numa espécie de liturgia do fim, afugentando com meu gesto os pássaros de sonho, os deuses emplumados que mergulharão no milagre azul dos meus voos, e minhas palavras dançarão ao ritmo da ventania, valsa triste sob um céu de nenhuma sombra"

***

Marília Arnaud nasceu em Campina Grande, Paraíba. Escreveu quatro livros de contos, entre eles, O livro dos afetos (publicado pela editora 7letras em 2005), e participou de várias coletâneas de contos publicadas por importantes editoras do país. Em 2012 publicou seu primeiro romance, Suíte de silêncios, pela editora Rocco.

*Recebi este livro como cortesia da Editora Tordesilhas

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sorteio: A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe



Em parceria com a Biblioteca Azul, em setembro teremos um sorteio mais que especial: um exemplar da nova edição de A Máquina de Fazer Espanhóis autografada pelo Valter Hugo Mãe =]

Para participar do sorteio é só preencher o formulário (clique aqui) com seu nome e email e responder a pergunta desafio. As inscrições podem ser feitas até o dia 04/09/2016, apenas através deste formulário, e o sorteio será realizado no dia 05/09/2016, às 10h. 

Sorteio válido apenas para residentes no Brasil. 

O resultado será informado aqui no blog. Boa sorte! :)


sábado, 13 de agosto de 2016

Sobre livros perdidos e achados



Ontem passei pela biblioteca central da universidade. Precisava de um livro para um texto que estou escrevendo, mas como às vezes demoro muito para localizar as coisas que eu preciso na biblioteca (aquele sistema de organização é algo que ainda me engana muitas vezes), acabo sempre passeando por outras estantes, olhando os livros com calma, vez ou outra algum me chama a atenção e ontem não foi diferente. Peguei alguns da estante, sentei em uma das mesas de estudo e fiquei por lá esperando o horário em que iria buscar minha irmã. 

Adoro bibliotecas. Sempre gostei de ficar passeando pelos corredores, olhando as lombadas dos livros, encontrando títulos interessantes; é um lugar cheio de possibilidades. Já pararam para pensar que há livros ali que talvez não tenham sido lidos por ninguém há anos? Acho triste como ocorre nas universidades estadunidenses, que descartam alguns livros depois de muito tempo sem que tenham sido emprestados. Por conta disso, já consegui comprar livros descartados por universidades, em ótimo estado, verdadeiras preciosidades, em sebos. Mesmo achando triste que eles deixassem de ter um lugarzinho para eles, fico sempre feliz quando esses livros me encontram, ainda mais vindo de tão longe.

Depois de mais de uma hora por lá, fui para o balcão de empréstimos. Qual não foi minha surpresa quando a bibliotecária me olha e diz:
- O livro desaparecido!

Sem entender o que era, apenas disse que o livro estava na prateleira, oras. Como assim desaparecido? E então ela me mostra que no sistema da biblioteca aquele livro constava, desde 2011, como desaparecido. Acho que alguém, por descuido, acabou colocando o livro em uma prateleira diferente, e com isso ele não era mais encontrado. Vejam só como é importante respeitarmos essas regras e deixar os livros consultados naquelas mesas específicas, para que os bibliotecários possam colocá-los nos lugares certos. Esse sistema de organização é mesmo algo importante e uma coisa que eu pretendo aprender bem ainda (já tô bem melhor do que nas primeiras vezes na biblioteca central).

Outra bibliotecária foi chamada para orientar a primeira sobre como proceder, pois dada a surpresa da moça, não se encontram livros desaparecidos com muita frequência, ela não sabia o que fazer. Após verificarem que o livro estava em bom estado e em condições de ser emprestado, pude efetuar o empréstimo. Ele voltou comigo para casa, para seu primeiro passeio depois de cinco anos na estante da biblioteca.

Foi uma coisa bonita no meu dia, isso de saber que salvei um livro do esquecimento. São sempre os livros que me salvam, foi bom ter a chance de fazer isso também, ainda mais de um livro feminista, mesmo que tenha sido por acaso. (Mas como acho que são os livros que nos escolhem, talvez nem tenha sido tanto acaso assim).

E vocês, já encontraram algum livro perdido? =]

domingo, 7 de agosto de 2016

Vidas Partidas


Felizinhas

Lembro de minha mãe com algodão nas narinas e 
sete furos abaixo do seio esquerdo. Ornamentais. 
E também lembro da minha avó roxinha, 
roxa que nem repolho, com uns ornamentos no pescoço. 
E me ensinaram que elas eram felizes. 
(Ana Elisa Ribeiro, Beijo, boa sorte, 2015, p. 17)


No dia em que a Lei Maria da Penha* completa 10 anos, decidi escrever sobre o filme Vidas Partidas, do diretor Marcos Schechtman, que estreou essa semana nos cinemas brasileiros. Inspirado nas muitas histórias de violência contra as mulheres que ainda hoje infelizmente são uma realidade, o filme conta a história de Graça, interpretada pela atriz Naura Schneider, uma bióloga de sucesso, casada e mãe de duas filhas. Graça é apaixonada pelo marido, Raul, interpretado pelo ator Domingos Montagner, e os dois vivem um relacionamento passional e abusivo. 

Ambientado no nordeste do Brasil nos anos 1980, o filme coloca em pauta uma questão essencial nos nossos dias: a violência doméstica que destrói a vida de mulheres no mundo inteiro e os problemas que as mulheres ainda enfrentam ao buscar ajuda em situações de violência, uma vez que a burocracia e a falta de preparo dos profissionais que prestam atendimento às vítimas, e também por parte da polícia, dificulta bastante as denúncias. 

A relação entre o casal é intensa e desde o início já percebemos os sinais de que é uma relação abusiva. Autoritário, ciumento, Raul age de forma a controlar tudo na rotina familiar, monitorando todo e qualquer contato que a esposa tenha, mesmo que seja com colegas de trabalho ou outros membros da família. Apresenta reações exageradas com as filhas e com a esposa e depois se arrepende, pedindo desculpas e trazendo presentes, algo comum nesses casos de violência e comportamento que ajuda a manter as mulheres presas aos ciclos de violência.

Os problemas vão aumentando quando Raul fica desempregado e Graça avança em sua carreira, recebendo prêmios pelo seu trabalho. No patriarcado, o sucesso e a independência das mulheres não é visto com bons olhos e a violência surge muitas vezes como forma de mantê-las "sob controle", em situação de inferioridade. 

Tentando ajudar Raul, Graça pede um favor a um ex-namorado, que consegue um emprego como professor na universidade para Raul. Quando começa a lecionar, Raul logo se envolve com as alunas e mantém trancadas em um quarto da casa todas as cartas que recebe de suas amantes. Ao mesmo tempo, Raul passa a agir com mais e mais violência, fazendo cenas de ciúmes no ambiente profissional de Graça, o que a prejudica bastante. A violência psicológica que já existia se intensifica e as agressões físicas começam. 

O mais interessante do filme é que ele mostra bem como os ciclos de violência ocorrem e como as mudanças de comportamento do agressor, que logo após ter agredido de forma violenta a esposa pede perdão e dá presentes e flores, ou age de forma amorosa com as filhas, mostrando ser um bom pai, são formas de manter a mulher presa ao ciclo de violência por pensar na manutenção da família. O que eu mais gostei, no entanto, foi o fato de Graça ter ido até o fim no processo judicial contra o agressor. Só lamentei que isso tenha demorado tanto para acontecer, pois cada dia de espera significa mais riscos para a mulher em situação violenta. É importante pensar também o impacto dessa violência para as crianças que vivem presenciando essa violência cometida pelo pai, o que muitas vezes também as transforma em vítimas.

É sem dúvida um filme que vale a pena ser visto pela discussão importante que ele traz nos dias de hoje e que pode ser muito informativo. Acho que é também um alerta para as mulheres que muitas vezes não sabem reconhecer que vivem em uma situação de violência porque somos ensinadas desde criança que o casamento significa posse (para os homens), sacrifício (por parte da mulher) e que é responsabilidade da mulher mantê-lo para preservar a família. Precisamos desconstruir essa ideia hoje e pelo futuro das próximas gerações. E precisamos conversar para reconhecer que violência dói e não é direito e que há formas de resistir e de lutar para que os agressores sejam punidos.

Recomendo a leitura:



Para assistir ao trailer:




*Lei diminuiu em 10% os assassinatos contra mulheres

Segundo dados de 2015 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a lei Maria da Penha contribuiu para uma diminuição de cerca de 10% na taxa de homicídios contra mulheres praticados dentro das residência das vítimas.

* E se vocês conhecerem outros filmes (e também livros, músicas) que falem sobre violência doméstica, compartilhem aqui nos comentários =]

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Butcher's Crossing


"Esses moços", disse McDonald com desdém. 
"Sempre acham que existe alguma coisa mais para descobrir" 


Estados Unidos, 1870. O jovem Will Andrews, estudante de Direito na Universidade de Harvard, decide largar tudo em busca de uma vida mais autêntica. Está em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é e chega a Butcher's Crossing, uma cidadezinha do Kansas, dessas bem típicas dos filmes de faroeste, com um pouco de dinheiro e uma vontade de ver o mundo que até então ele só conheceu nos livros.

Ao chegar em Butcher's Crossing, ele procura um velho conhecido de seu pai, McDonald, dono de uma charquearia e o maior negociante de peles de búfalos da região. Enquanto caminha até lá, Will passa por grupos de caçadores que saem em busca dos búfalos, cujas peles são vendidas para McDonald, um negócio lucrativo na época. Nessa cidadezinha isolada, pacata, onde o tempo parece ter parado, as pessoas vivem na esperança da chegada da ferrovia, que mudaria para melhor as condições de vida e de trabalho de todos. 


No saloon da cidade, Will conhece Miller, um caçador experiente indicado por McDonald, e seu fiel escudeiro, Charley Hoge. Assim, ele fica sabendo dos sonhos de Miller de conseguir ir em busca da maior manada de búfalos que ele já viu, anos antes, em uma região mais afastada e que aparentemente se mantém intocada. Will vê nessa expedição a aventura que busca e decide partir com Miller, Charley e o rabugento Schneider, o esfolador contratado para tirar as peles dos búfalos, nessa jornada que o aproximará da natureza de forma intensa e transformadora.

Segundo romance do escritor estadunidense John Williams que chega ao público brasileiro pela Rádio Londres, Butcher's Crossing é um livro surpreendente, ao estilo de um bom faroeste americano, mas indo muito além disso. Um enredo aparentemente simples, mas que adquire grande profundidade em determinados momentos, como parece ser a marca de John Williams. Somos completamente envolvidos nessa história, cujas descrições tão ricas nos transportam de uma pequena cidadezinha no Kansas até as montanhas do Colorado. Quase dá para sentir a poeira, o vento, os cheiros.

Juntos, os quatro personagens enfrentam a exaustão física, a fome, a sede, o calor e o frio intenso do inverno. A caçada acaba por se tornar uma experiência existencial para eles, mas principalmente para Andrews, que passa por um processo de amadurecimento diante da vida durante essa jornada que acaba por durar muito mais tempo do que eles imaginavam. Nesse sentido, o romance pode ser lido como um romance de formação. Com seu jeito mais quieto e observador, e o contato com homens tão diferentes quanto Miller, Charley e Schneider por tanto tempo possibilitam um grande aprendizado e equilibram as diferentes perspectivas presentes durante a viagem.

Apesar do enredo simples, o que parece conquistar os leitores é a forma como John Williams consegue narrar a história de modo a nos envolver completamente nesse cenário de intenso contato com a natureza, com descrições ricas e sensoriais, tão perfeito que nos imaginamos mesmo dentro de um filme de faroeste (não é a toa que já existe um filme baseado nesse livro). O deslumbramento de Will diante da natureza - ao mesmo tempo tão assustadora - permite refletir sobre o papel da natureza na vida do homem, sua força, sua capacidade de transformação. Nenhum deles permanece o mesmo depois dessa jornada, ainda que o que movia cada um deles fosse algo diferente. Essa transformação é visível nas personagens, nas quais é possível perceber até mesmo certa animalização diante da experiência de isolamento em meio à natureza.
"Não conseguia imaginar sequer imaginar como seria. Com um leve choque, ele se deu conta de que o mundo, além daquela região cercada por encostas de montanhas por todos os lados, havia se apagado em sua memória. Não conseguia sequer se lembrar da montanha que haviam subido, sem mesmo da vasta planície onde haviam suado e sentido sede, tampouco de Butcher's Crossing, aonde chegara e que deixara apenas uma semana antes. Aquele mundo só lhe voltava aos surtos e de forma confusa, como que escondido num sonho. Havia passado naquele vale o período mais importante de sua vida, e quando olhou de cima - plano, verde-amarelado, as altas muralhas da montanha, amadeirada de pinheiros verdes escuros onde flamejava o ouro rubro dos álamos trêmulos, as rochas ressaltadas e as encostas, tudo toldado pelo azul intenso do céu de ar rarefeito -, parecia-lhe que os próprios contornos do lugar eram fluidos sob seus olhos, que seu próprio olhar modalva o que ele via e que, em troca, lhe dava à própria existência forma e lugar. Não conseguia mais pensar em si mesmo fora de onde se encontrava" (p. 194-195).
Butcher's Crossing é um livro sobre a necessidade de dar sentido à vida e à existência, a necessidade intensa de descobrir o mundo e desbravá-lo, procurando por algo que nem sabemos o que seja, sentimento tão comum na juventude (e às vezes também além dela). É um livro sobre as paixões e as ambições idealizadas, muitas das quais nos movem durante boa parte da vida, até percebermos que o tempo passou, que no final não fazia tanto sentido como imaginávamos. Talvez seja esse elemento existencial o que nos aproxima tanto do livro, mesmo que não tenhamos jamais imaginado gostar de uma narrativa que tratasse de caçadas de búfalos e homens em território selvagem. Mas se pensarmos que essa caçada é a vida, e que a busca desenfreada por trabalho, aventuras e descobertas, e também paixões, seja um sentimento tão comum entre nós, a ser trabalhado com o tempo e o amadurecimento (sábias palavras do velho McDonald), tudo faz mais sentido. E nos deixa com um sentimento, misto de melancolia e nostalgia, quando a jornada das personagens (e a leitura do livro) chega ao fim. Uma das melhores leituras do ano.

"Depois de um instante de euforia diante do anúncio de Miller, Andrews se sentiu tomado por uma tristeza estranha, como um pressentimento de nostalgia. Olhou para a pequena fogueira ardendo alegremente contra a escuridão e, mais além, ele viu a escuridão. Lá estava o vale que ele acabara conhecendo tão bem quanto a palma da própria mão. Ele não conseguia enxergá-lo, mas sabia que estava ali; e lá estavam os cadáveres putrefatos dos búfalos por cujas peles eles haviam trocado seu suor, seu tempo e boa parte de suas energias. Os fardos de peles também estavam por ali no escuro. Pela manhã, eles os carregariam na carroça e iriam embora daquele lugar; e ele teve a sensação de que jamais retornaria ali, embora soubesse que precisaria voltar com os outros para buscar as peles que não conseguissem levar. Sentia vagamente que estava deixando alguma coisa para trás, algo que talvez pudesse ser precioso para ele, se soubesse do que se tratava. Naquela noite, depois que a fogueira apagou, ele se deitou no escuro, sozinho, fora do abrigo, e deixou que o frio atravessasse suas roupas e sua carne. Enfim, adormeceu, mas acordou à noite várias vezes, e forçou a vista diante da escuridão da noite sem estrelas" (p. 254).
***

John Edward Williams (1922-1994) nasceu em Clarksville, no Texas, Estados Unidos. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954, recebeu o título de doutor em Literatura Inglesa na Universidade do Missouri. Trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa na Universidade de Denver até sua aposentadoria, em 1985. Em Denver, também foi o editor fundador de uma revista literária,The Denver Quarterly. Publicou quatro livros: 
"Nothing but the Night" (1948), "Butcher's Crossing" (1960),  "Stoner" (1965) e Augustus (1972), que ganhou o National Book Award. Também publicou dois livros de poesia: "The Broken Landscape: Poems" (1949) e "The Necessary Lie" (1965).


*Recebi este livro como cortesia da Editora Rádio Londres.